Elias e Eliseu
William Leander Post
Ed. de agosto de 1911 do Christian Science Sentinel
No relato bíblico das cenas finais da vida terrena de Elias, o maior dos profetas, encontra-se uma narrativa de notável interesse e significado, especialmente para os fiéis Cientistas Cristãos de hoje. A obra de Elias estendeu-se pelos reinados idólatras de vários reis agressivos, e suas atividades e profecias foram direcionadas quase que inteiramente para libertar os filhos de Israel da adoração a falsos deuses e das consequências desastrosas decorrentes de sua desobediência. Por muitos anos, ele persistiu pacientemente em proclamar a palavra de Deus a uma nação que não ouvia e não dava ouvidos. Mal compreendido, caluniado e perseguido, sua vida foi constantemente ameaçada, e até mesmo os reconhecidos líderes religiosos estavam em conluio contra ele. Apesar de toda essa oposição, por meio de uma fé inabalável em Deus, ele persistiu em sua obra e foi finalmente recompensado ao perceber que sua mensagem fora ouvida e, de certa forma, levada em consideração, como testemunhado pela tolerância respeitosa, senão pela aceitação, de suas profecias por toda Israel e pelo amor reconfortante daqueles que compreendiam mais plenamente seus ensinamentos.
Entre seus fiéis seguidores, nenhum dos quais apreendeu suficientemente a mensagem que ele trazia ou as obras que realizava para se aproximar de seu padrão, estava um pobre lavrador, chamado Eliseu, que, após muitas lutas internas ao se separar de amigos e atividades familiares, dedicou-se ardentemente a compreender e demonstrar as verdades que ouvia e via diariamente praticadas por seu amado mestre. Está registrado que, por fim, “quando o Senhor levou Elias para o céu”, Eliseu o acompanhou em sua longa jornada entre o povo. Por onde passavam nessa peregrinação de despedida, os “filhos dos profetas”, que duvidavam de Elias e, sem dúvida, tinham inveja de seu sucesso e do de seu companheiro, zombavam de Eliseu com a pergunta: “Você sabia que hoje o SENHOR levará o seu mestre, elevando-o por sobre a sua cabeça”? Como que dizendo: “O que será de você quando aquele a quem você segue não estiver mais com você?”. Mas a coragem do jovem profeta-discípulo não lhe faltou, e invariavelmente ele respondia: “Sim, eu sei; calem-se”.
Seguindo com seu amado mestre, finalmente chegaram às fronteiras da terra e o grande Jordão se estendia diante deles, interrompendo seu avanço; e Elias, com seu manto, símbolo da Verdade onipotente que o havia revestido e sustentado em suas muitas e variadas experiências, golpeou as águas impetuosas da limitação, “e elas se separaram, de modo que ambos atravessaram sobre terra seca”.
Você acha que Elias realizou essa última grande obra para comprovar, em sua própria consciência, o controle inabalável do homem sobre as condições materiais por meio da compreensão da “lei do Espírito”, ou foi como uma fonte de encorajamento e maior esclarecimento para o fiel Eliseu, e de força para os cinquenta filhos dos profetas que, incrédulos, “ficaram observando de longe”, sem dúvida se perguntando se o que ele evidentemente havia predito sobre sua partida se cumpriria? Seja qual for o motivo, ele certamente realizou todas essas coisas com seu ato, e enquanto caminhavam após essa demonstração positiva da verdade espiritual sobre as condições mortais, está registrado que ele disse a Eliseu: “Peça-me o que quiser, antes que eu seja levado de você”, ao que Eliseu respondeu imediatamente: “Peço-te que me seja dada uma porção dobrada do teu espírito”.
Reconhecendo talvez nesse pedido um certo apego à personalidade, mas também vislumbrando, por meio de sua intuição espiritual, o desejo sincero pela Verdade, Elias respondeu: “Pediste uma coisa difícil; contudo, se me vires quando eu for levado de ti, assim te acontecerá; mas, se não, não será”.
Elias sabia que, se Eliseu ainda o visse quando fosse levado, se ainda reconhecesse e se apegasse à sua identidade espiritual como homem à imagem de Deus, depois de ter desaparecido para os sentidos materiais, essa percepção da verdade do ser, ocupando o lugar em sua consciência de um conceito até então personalizado e, portanto, limitado, o batizaria com uma dupla porção do espírito da Verdade que tão grandiosamente operara pela humanidade em sua própria experiência. Isso o capacitaria, como fiel seguidor de um grande expositor da lei de Deus, a assumir a obra deixada por seu mestre e a alcançar, gradualmente, as maiores alturas para as quais as obras e palavras do mestre inspirado apontavam.
Eliseu alcançou uma consciência mais plena de sua própria missão de vida, e à medida que Elias transcendia sua capacidade de discernimento, ele abandonou a sua concepção humana de líder e mestre, e não lamentou, mas exclamou: “Meu pai, meu pai, o carro de Israel e seus cavaleiros!”, pois percebeu naquele sublime momento de exaltação espiritual que o mesmo poder que carregara e sustentara Israel ao longo de toda a sua história, e que o sustentaria dali em diante, havia capacitado seu mestre a superar a adversidade.Com esse pensamento reconfortante, Eliseu retornou às margens do Jordão e, invocando não seu mestre falecido, mas o Deus desse mestre, dissipou as águas da dúvida e prosseguiu com sua missão de demonstração, confiante de que, em seu amor e lealdade, suas obras estariam à altura do elevado padrão estabelecido por seu mestre e amigo.
Um estudo cuidadoso desses incidentes, encontrados em I e II Reis, será proveitoso; e embora a narrativa em nenhum momento afirme que Eliseu continuou a amar e reverenciar Elias, podemos ter certeza de que a visão de Elias – quando este lhe foi tirado – deve ter incluído uma alta compreensão da pessoa de Elias, bem como uma interpretação mais clara da Verdade impessoal.
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