A Humanidade de Cristo Jesus
Da Ed. do jornal Sentinela da Ciência Cristã de 9 de março de 1912, por Anne Dodge
No Evangelho de João, capítulo três, lemos: “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. Pois Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para condenar o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por meio dele.” Esta é uma declaração de que a humanidade é salva pela e através da crença na divindade e da demonstração dessa fé, o que confere um significado especial à afirmação de Mary Baker Eddy de que “a divindade do Cristo se manifestou na humanidade de Jesus” (Ciência e Saúde, p. 25). Um estudo cuidadoso da vida, das palavras e das obras de Jesus enfatiza uma humanidade que se eleva cada vez mais até desaparecer completamente na divindade e ser substituída pelo ser espiritual.
Jesus nasceu em uma manjedoura e submeteu-se gradualmente aos costumes da época em que viveu, dizendo, ao ser batizado por João: “Deixem como está por enquanto, pois assim nos convém cumprir toda a justiça”. Sua sempre pronta compaixão por aqueles que estavam sobrecarregados com as preocupações deste mundo, necessitados ou aflitos, é expressa em palavras como: “Ele me enviou para curar os quebrantados de coração”; “Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei” — transmitindo uma promessa de libertação aos cativos dos sentidos e recompensa àqueles que valorizam os dons espirituais mais do que os mundanos, buscando o Princípio em vez da personalidade. Considerem as palavras de conforto e a esperança que ele trouxe aos que choravam, como quando disse: “Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados”; e quando devolveu à viúva que chorava seu único filho; a Jairo, sua filha querida; a Maria e Marta, seu amado irmão.
Sua compaixão e ternura se manifestavam para com os pecadores arrependidos (aqueles que haviam sofrido por seus pecados), como no caso de Maria Madalena, cujos pecados foram completamente apagados pelo Amor divino e a pecadora transformada; suas parábolas da “Ovelha perdida”, da “Moeda perdida”, do “Bom samaritano”, cuja misericórdia para com os desafortunados simbolizava a misericórdia divina, e do “Filho Pródigo”. O espírito de tudo isso se vê nas palavras de Jesus: “Se um homem tiver cem ovelhas, e uma delas se extraviar, não deixará ele as noventa e nove, e irá aos morros procurar a que se extraviou? E, se porventura a encontrar, alegra-se mais por aquela do que pelas noventa e nove que não se extraviaram”.
Quando Pedro perguntou: “Senhor, quantas vezes deverei perdoar meu irmão quando ele pecar contra mim? Até sete vezes?”, Jesus respondeu: “Eu não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete”. E, após essa declaração, ele proferiu sua maravilhosa parábola sobre o método do perdão divino e como obtê-lo, perdoando os outros como gostaríamos de ser perdoados! Mesmo pregado na cruz, Jesus intercedeu por seus inimigos, orando: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem”. O Amor Divino apagando os pecados do mundo! Que infinita compaixão ele tinha pelos doentes e sofredores indefesos, uma compaixão que trazia cura em suas asas, como no caso do paralítico, que lhe foi trazido em uma cama. Com que ternura e doçura reconfortante ele lhe falou: “Filho, tenha bom ânimo; os teus pecados te são perdoados”, e o curou de sua enfermidade física! Novamente, quando a mulher que sofrera por tantos anos pensava: “Se eu apenas tocar em sua roupa, ficarei curada”, ele se voltou para ela e disse: “Filha, tenha bom ânimo; a tua fé te curou”. Ele não a rejeitou nem a julgou por suas enfermidades, mas a abençoou e a curou por causa de sua fé em Cristo — seu poder divino.
Jesus não quebrou a cana rachada nem apagou a mecha que fumegava, mas demonstrou de todas as maneiras o poder e a vitória da Vida, da Verdade e do Amor divinos sobre toda forma de erro — pecado, doença e morte. Sua missão era apresentar o verdadeiro conceito de Deus e do homem, divinamente refletido na verdadeira humanidade! Que ideal sublime, para nós, refletir como num espelho o Princípio divino que abençoa, cura e salva! Redimir os pecadores e ressuscitar os caídos; aliviar os oprimidos; restaurar à vida, à esperança e à liberdade os espiritualmente mortos; dar saúde aos doentes e sofredores; amar nossos inimigos; retribuir bênçãos em vez de maldições e erguer o mundo do atoleiro da crença no mal para a gloriosa liberdade dos filhos de Deus!
Jesus jamais reconheceu qualquer condição de doença, pecado ou pecador como algo sem esperança ou além do alcance do poder divino, mas acreditou firmemente na onipotência e eficácia do Princípio divino redentor, Deus, mesmo sendo perseguido, insultado e crucificado por essa fé! No caso da mulher cananeia, que tão persistentemente o perseguiu e clamou por ele para salvar sua filha, seus discípulos imploraram que ele a mandasse embora. Mas ele não o fez e respondeu: “Não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel”.
Ele não respondeu às insistências da mulher quando ela o chamou de “filho de Davi”, mas quando ela reconheceu e admitiu sua filiação divina com as palavras: “Senhor, ajuda-me”, sua resposta à sua humilde súplica foi imediata, e o reconhecimento de seu poder divino e de sua própria indignidade lhe garantiu a cura de seu filho.
Em todos os casos em que a divindade de Jesus foi reconhecida como o poder que realizou a obra, a cura ocorreu instantaneamente como uma sequência natural; mas onde demoraram mais a perceber que Deus era o poder, a cura foi mais gradual; e em alguns lugares as “obras poderosas” não foram realizadas porque não aceitaram ou creram em sua divindade (ou natureza de Cristo), que era espiritual e inseparável de Deus. Ele se referiu a isso quando disse: “Eu e o Pai somos um”; e novamente: “O Pai que permanece em mim, esse faz as obras”. Mas quando alguém confundiu sua personalidade humana com sua divindade, ele disse: “Por que me chamas bom? Não há ninguém bom senão um, que é Deus”, mostrando com que clareza ele traçava a linha de distinção entre carne e Espírito, ao mesmo tempo que não reconhecia nenhum poder para o bem fora de Deus.
Ao seguirmos as demonstrações do Mestre, à medida que ele ascendia na escala do ser, é bom ponderar o significado de cada passo, conforme a mortalidade desaparece e a imortalidade surge; e ao nos aproximarmos do Getsêmani (onde a vontade humana se rendeu ao divino), caminhemos com reverentes pés descalços, pois o solo é sagrado, úmido com o orvalho da agonia, revigorado pela doce submissão à vontade divina e pela aceitação do martírio como o único caminho para provar o glorioso poder concedido ao homem por seu Criador.
Ele era, de fato, “um homem de dores e familiarizado com o sofrimento”. Ele orou para que o amargo cálice do martírio fosse afastado dele, mas com mansidão disse: “Não a minha vontade, mas a tua seja feita”. Visto que somente assim a vitória sobre a morte poderia ser provada aos mortais cegos e incrédulos, então ele deveria submeter-se mansamente ao martírio para que pudesse provar a verdade de seus ensinamentos e palavras! Levado “como um cordeiro para o matadouro”, ele não murmurou, mas levou sua demonstração ao cume do Calvário e além da sepultura, para que todos pudessem conhecer e crer na Vida eterna.
Nós, que nos incomodamos com as exigências diárias e o cumprimento dos deveres humanos, não nos esqueçamos de que, no momento supremo de sua vida terrena — quando pregado na cruz, concedendo aos mortais a maior prova do Amor divino e da imortalidade que o mundo já conheceu — ele entregou sua mãe aos cuidados de seu discípulo mais amado: “Mulher, eis aí o teu filho!” e a João: “Eis aí a tua mãe!” Que clímax sublime para a sua humanidade, que prova suprema da sua divindade, coroando assim a lição humanitária que veio ensinar à humanidade com terna solicitude e cuidado pela mãe humana, embora compreendesse, melhor do que qualquer um de origem menos espiritual, a irrealidade de todos os laços humanos.
As palavras inspiradas, “Está consumado”, encerraram esta lição humana, realizada para a redenção da humanidade pela divindade! Entregando-se à morte por nossa causa, para que pudesse provar o poder redentor da Vida divina sobre a morte e a sepultura, e revelar a grande verdade de que a Mente não está sujeita à morte, e que o ser não pode ver a corrupção ou o mal de qualquer espécie, ele ascendeu a uma forma mais elevada e etérea, que Maria Madalena não reconheceu de imediato ao seu reaparecimento após a crucificação. Sua aparência pessoal havia mudado um pouco, o ser humano “revestido” pelo divino — o sentido pessoal dissolvendo-se, para ser substituído pelo sentido impessoal e verdadeiro do ser; a mortalidade desaparecendo, “absorvida” pela Vida, e a morte vencida, triunfante!
Busquemos, então, essa humanidade superior que, como nos diz Mary Baker Eddy, “unirá todos os interesses na única divindade” (Ciência e Saúde, p. 571), lembrando sempre que a glória, a honra, a majestade, o poder e a força, todo o bem, pertencem a Deus, a quem o homem reflete; e que nenhum mortal presunçoso tente arrogar para si o poder divino, ou Cristo, pois esse pecado é o argumento da serpente ao longo dos tempos: “Eu vos farei como deuses”. Obedeçamos humildemente ao Princípio e à regra estabelecidos pelo grande Mestre que, em sua divindade, serviu à humanidade em todas as instâncias, realizando assim os fins do bem.